Análises e Impactos
na sexualidade do brasileiro
Miguel Fontes
m.fontes@johnsnow.com.br
Miguel Fontes é diretor da John Snow
Brasil Consultoria
A revolução digital trouxe, nos últimos anos,
conquistas para a humanidade em todas as áreas do desenvolvimento.
Na área social, não foi diferente. Cálculos
estatísticos de grande complexidade que levariam meses
para ser realizados, hoje, podem ser rapidamente executados com
o aperto de apenas um botão. Esses cálculos contribuem
para a definição de associações existentes
entre problemas sociais (uso de drogas, práticas de violência,
não uso de preservativo, hábito do fumo, etc.) e
determinantes econômicas, sociais e/ou comportamentais (pobreza,
normas culturais e dificuldades de relacionamentos).
Antes da revolução tecnológica, as pesquisas
sociais focavam análises exploratórias dos dados,
ou seja, a definição de perfis de comportamento
e dos próprios problemas sociais. Por exemplo, no caso
dos 14% de jovens que já usaram drogas ilícitas
em algum momento de sua vida, esse indicador apresenta um perfil
de comportamento. Porém, qual a contribuição
desse indicador para uma nova intervenção social?
Isso é importante para entendermos a magnitude do problema,
mas não apresenta quais as determinantes que influenciariam
para uma variação significativa desse número
para mais ou menos. Será que jovens que conversam mais
com seus pais e/ou são do sexo feminino são menos
vulneráveis a esse consumo?
Essas são hipóteses importantes que precisam ser
testadas para que um problema social seja solucionado corretamente.
Isso reduz os custos de novas intervenções sociais,
dando mais foco e adaptando a linguagem. No caso das vacinas,
hoje se sabe que nem toda a população precisa ser
vacinada para um país atingir um nível de 100% de
cobertura, em função do conceito de “proteção
herdada”. Não é de surpreender, então,
que outras questões sociais precisariam apenas focar em
menos de 10% de uma população.
No entanto, é essencial definir onde estão essas
vulnerabilidades. Como identificá-las? Será que
há apenas uma determinante fundamental para que um problema
social se estabeleça? Por exemplo, será que todo
o problema de violência urbana pode ser atribuído
à falta de educação da população,
como ouvimos rotineiramente nas vozes de políticos e leigos?
Na grande maioria dos casos, não há como se estabelecer
uma causa única para os problemas sociais. As pesquisas
“causais” são geralmente realizadas em laboratórios
e estão diretamente ligadas à disfunções
físicas e mentais que causam determinadas doenças
e/ou mortes. Ou seja, a pesquisa “causal” é
a busca pelo estabelecimento de um fator que explica 100% de um
fenômeno social.
Sendo assim, mesmo levando em consideração que
não podemos estabelecer uma única causa para um
problema social, um novo campo se abre de investigação
com a possibilidade do desenvolvimento de pesquisas de cunho explanatório.
Ou seja, pesquisas que consigam atribuir objetivamente a associação
entre determinantes sociais, econômicas e comportamentais
e os problemas objeto de investigação. Nesse caso,
há de se vestir as “sandálias da humildade”
e compreender que sempre haverá fatores que vão
além de um modelo estatístico estabelecido.
Na literatura internacional, alguns modelos considerados robustos
e de grande significância estatística apenas conseguem
estabelecer níveis explicativos de variação
de um problema social até no máximo 10%. Logicamente,
o ideal é sempre tentar incorporar variáveis que
aumentem esse valor, mas já devemos considerar que um nível
de explicação de 100% é simplesmente uma
utopia.
Para exemplificar com um caso recente de como se deve ter cuidado
para não confundir análises de cunho exploratório
e análise de cunho explanatório, um estudo recente
realizado pela Durex Network sobre a sexualidade do brasileiro
foi bastante esclarecedor. Em um primeiro momento, foi perguntado
aos brasileiros, quais seriam suas principais fontes de educação
sexual. Como demonstrado no gráfico abaixo, no ranking
de principais fontes, amigos/colegas “venceram” facilmente
as outras fontes de educação com mais de 75% das
indicações. Foi interessante observar também
que os pais e responsáveis ficaram em 7º. Lugar com
apenas 33% das referências.
Em base a esse resultado de cunho exploratório, o que
fazer? Logicamente, muitos especialistas em marketing social diriam
que o foco de novas atividades educativas deveriam ser com os
próprios amigos e colegas, enfatizando talvez iniciativas
como a de “multiplicadores do conhecimento”.
No entanto, a pesquisa da Durex Network (www.durexnetwork.org)
foi além! Em base a uma análise explanatória,
buscou-se identificar quais dessas fontes teria realmente impacto
sobre o nível de confiança dos brasileiros em relação
a sua sexualidade. Pois, não se pode afirmar que por alguém
ser mais exposto a uma fonte de educação, tornar-se-á
mais confiante. Talvez essa fonte não seja a mais eficaz..
Para surpresa dos pesquisadores, apenas uma fonte se mostrou significativamente
mais eficaz do que todas as outras em relação a
maior confiança sobre a sexualidade dos brasileiros: os
pais ou responsáveis. Ou seja, com os amigos/colegas realmente
se conversa muito sobre sexo, mas não há qualquer
impacto objetivo sobre níveis de confiança. Do outro
lado, com pais e responsáveis não se conversa muito,
é fato, mas essa fonte é a principal determinante
para explicar níveis de variação positiva
na sexualidade do brasileiro.

Nem tudo é aquilo que se vê. Um profissional de
marketing social deve sempre ter um perfil investigativo e validar
os indicadores de pesquisa com senso crítico. Pois, o objetivo
é sempre impactar positivamente a vida das pessoas e da
comunidade. Ou seja, da próxima vez que tomar conhecimento
sobre o lançamento de uma nova pesquisa, nunca aceite seu
resultado sem se perguntar... Quais são as variáveis
que realmente têm impacto para a melhoria da qualidade de
vida da sociedade?
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Diretor
da John Snow Brasil e PhD Candidate em Desenvolvimento de Alianças
Público Privadas, Deptº de Saúde Internacional,Johns
Hopkins University - SAIS
e-mail: m.fontes@johnsnow.com.br
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