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Marketing Social, Mobilização Social e Terapia Comunitária – uma aliança para a prevenção da violência entre jovens da periferia PDF Imprimir
Artigos - Marketing Social
Escrito por Mariann Tóth   
Qui, 16 de Julho de 2009 17:40
Este artigo pretende relatar a aplicação prática das ferramentas do Marketing Social para a realização de intervenções sociais relacionadas à redução da violência entre jovens. O artigo apresenta um estudo de caso de uma ação específica realizada em duas cidades do Distrito Federal, com a participação de 300 jovens entre 18 e 24 anos, o Programa Jovem de Expressão. Embasado na compreensão e na análise de fatores determinantes da violência entre jovens, e na análise do contexto individual e social do público-adotante, o Programa representa uma aliança entre as estratégias de Mobilização Social, Terapia Comunitária e Marketing Social. No âmbito do Programa analisado, a união das três metodologias resultou no êxito da mobilização dos jovens para a reflexão sobre questões individuais e coletivas dentro do campo íntimo e social, e para a participação social dentro de sua comunidade.


Diversos estudos divulgados nacional e internacionalmente demonstram que jovens são as principais vítimas de causas externas ligadas a atos violentos (WAISELFISZ, 2008). Nas últimas duas décadas tem se afirmado a existência de “novos padrões de mortalidade juvenil”, indicando uma inversão das principais causas de morte entre jovens. As principais causas de mortalidade (doenças infecciosas e epidemias) têm sido progressivamente substituídas por causas externas (acidentes, homicídios e suicídios), sendo essas responsáveis por 72,8% da mortalidade dos jovens no país (Ministério da Saúde, 2008). Desta forma, a violência tem sido considerada um problema de saúde pública no Brasil (OLIVEIRA).

Por entender a juventude como uma fase da vida marcada por processos de escolhas e definições pessoais e coletivas determinantes para a vida adulta, e por acreditar que o fator comportamental desta população está inserido dentro de um processo marcado por macro-relações sociais, econômicas e culturais, a Organização Pan-Americana de Saúde, o Grupo Caixa Seguros a John Snow Brasil Consultoria e a Opinião Consultoria, em 2006, realizaram um estudo denominado Fatores de determinantes da violência interpessoal entre jovens no DF cujo objetivo geral foi investigar quais determinantes influenciam jovens a cometer, sofrer ou testemunhar atos de violência física e sugerir medidas que possam contribuir para recrudescer este quadro (FONTES ET AL 2006).

O estudo realizado com 1.067 jovens, de 18 a 24 anos, residentes em oito Regiões Administrativas do Distrito Federal, comportou 56 questões que abordam diversos variáveis: escolhas pessoais; família, mídia; escola; trabalho; comunidade e religião; as ameaças e atos violentos realizados, sofridos e testemunhados. De acordo com os resultados, o grupo de fatores que mais influência a violência entre jovens é o de escolhas pessoais, seguido de mídia; família; escola; e trabalho. Resultados mostram que a falta de referência pessoal aumenta em 6,2% o Nível de Violência entre Jovens (NVJ). Um ano a mais de educação reduz o NVJ em 1,1%, e um ano a menos o amplia em 2,7%. Ter preferência por programas educativos reduz o NVJ em 4,4%, mas um dia a mais de consumo alcoólico o aumenta em 0,05%. 50,3% dos jovens que relataram ter sofrido violência física, já cometeram atos de violência e 35,87% daqueles que já ameaçaram alguém, também foram vítimas. Outra conclusão surpreendente foi verificar que a violência testemunhada e praticada está intimamente relaciona a questões de saúde mental.

Diante dos fatos expostos a pergunta que se colocou imediatamente é se esses dados seriam causados pelos comportamentos violentos intrínsecos à faixa etária estudada, ou seriam questões sociais estruturais que determinariam seu comportamento, dentro de um aspecto mais amplo (violência intra-familiar, exclusão social, falta de oportunidades de lazer saudável). Chegou-se à conclusão que não basta analisar os comportamentos agressivos somente de um ponto de vista comportamental, sendo essencial a compreensão do contexto social, econômico e cultural em que se passam essas ações. Para desenhar ações específicas preventivas com relação aos comportamentos violentos, foram analisados os fatores que determinam os conhecimentos, atitudes e práticas dos jovens, e pretendeu-se avaliar os aspectos necessários a serem trabalhados dentro de um plano lógico e científico. As evidências sugerem a importância de se investigar processos preventivos e de promoção de oportunidades aos jovens. Além disso, a realização de intervenções que fortaleçam seus laços junto à família, mídia, escola, e a promoção de abordagens multisetoriais que estruturem redes de apoio podem ser essenciais para redução do problema investigado.

Com as ferramentas configuradas e aplicadas no contexto supracitado, foi criado, em 2006, o Programa Jovem de Expressão, que atende jovens de 18 a 24 anos das cidades Sobradinho 2 e Ceilândia, localizadas na periferia do Distrito Federal. Essas duas cidades são caracterizadas por uma situação de vulnerabilidade e de exclusão social, aliado a índices altíssimos de violência interpessoal e falta de opções de lazer saudável e cidadã (RAMALHO, 2008). A intervenção atua em três eixos principais: Terapia Comunitária (executada por terapeutas comunitários do Movimento Integrado de Saúde Comunitária do DF- MISMEC); Mobilização Social (componente denominada de “Expressão Jovem”, executada pela organização não-governamental Grupo Cultural Azulim); e Marketing Social que permeia e orienta toda a gestão do Programa em suas fazes de planejamento, implementação e avaliação.

A Terapia Comunitária foi escolhida por representar um instrumento que, por meio da valorização do saber popular individual e do resgate das heranças culturais e espirituais, constrói redes solidárias de promoção da vida, e trabalha o indivíduo para que este se torne um parceiro ativo e sujeito de sua história (BARRETO, 2005). Para as estratégias de Mobilização Social utiliza-se como fundo teórico a definição de Toro, na qual “mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um objetivo comum, determinado, para uma mudança na realidade, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados” (TORO, 1997).

Por sua vez, o processo da gestão da intervenção é fundamentado nas definições, estratégias e ferramentas do Marketing Social, por oferecer ferramentas com eficácia comprovada nacional e internacionalmente na gestão estratégica dos processos de mudança social. O Marketing Social (gestão estratégica da mudança social) tem como principal objetivo fomentar e facilitar da adoção de Conhecimentos, Atitudes e Práticas (CAPs) favoráveis ao desenvolvimento e convívio social (FONTES, 2008). Para isso, utiliza ferramentas estratégicas específicas como o levantamento de necessidades e demandas, a verificação dos CAPs atuais e os ideais. O Marketing Social analisa, ainda, seis aspectos principais na elaboração de planos de gestão social estratégica. Esta análise é chamada de Marketing Mix Social e engloba a definição dos chamados “6 P’s”: Produto Social, Público-Adotante, Preço Social, Promoção, Ponto-de-Distribuição e Pessoal. Além disso, trabalha com a determinação e desenho de Tecnologias Sociais que facilitem a adoção dos Conhecimentos, Atitudes, e Práticas desejados (FONTES, 2008).

Ao analisar os 6 P’s do Marketing Social, estuda-se a relação entre os custos e os benefícios sociais e coletivos da adoção de certos CAPs, processo essencial para a definição das estratégias de promoção (mobilização e aproximação da demanda) e de ponto de distribuição (aproximação da oferta à demanda, ou seja, aproximação dos CAPs promovidos aos jovens). A análise dos 6 P’s ajudam a refletir sobre as possíveis dificuldades  de adotar determinados CAPs (custos sociais e individuais), e permitem desenhar ações estratégicas definidas para cada um dos itens percebidos (WASEK, 2000).

Como acontece na maioria das intervenções sociais, alguns desafios foram encontrados durante a implementação do piloto do Programa. Esses desafios têm sido analisados e trabalhados dentro da lógica Marketing Mix Social, o que tem facilitado a gestão estratégica da intervenção, potencializando os impactos positivos das estratégias de Mobilização Social e de Terapia Comunitária. Em primeiro lugar, para a efetividade de ações no âmbito da prevenção da violência, não basta promover campanhas de comunicação massivas incentivando a entrega de armas, nem somente criar espaços de convívio seguros para os jovens. É essencial levar em conta todos os determinantes que contribuem para que os comportamentos se manifestem, partindo desde uma análise do contexto sócio-educacional, passando pelo econômico, cultural e mental. Por isso, os Produtos Sociais, ou seja, os CAPs  promovidos relacionados à prevenção da violência, desenvolvimento social, auto-estima e valorização pessoal e cultural perpassam todo o conteúdo dos programas e atividades realizadas. Também ficou claro que não basta oferecer um espaço seguro e lúdico para o público jovem, pois este grupo precisa de alternativas de geração de renda e expressar a sua criatividade de forma profissional que não representem meramente um hobby. Por isso, o Programa tem focado a oferta de oficinas de capacitação em temáticas que fomentem uma atuação empreendedora e pró-ativa, junto ao resgate da auto-estima e valorização da cultura local.

Trabalhar com o Público-adotante formado por jovens de 18 a 24 anos tem sido um grande desafio, pois a maioria dos programas sociais está acostumada em trabalhar com o público adolescente. A diferença principal dos jovens para os adolescentes, é que os jovens estão numa faixa etária em que são cobrados por suas obrigações profissionais, familiares e financeiras (sustentar a casa ou contribuir com o orçamento da casa dos pais), e não têm opções direcionadas e acessíveis de lazer saudável e cidadã, principalmente na periferia (RAMALHO, 2008). Por isso, os programas que visam alcançar este segmento devem estar preparados para certa rotatividade do público, e proporcionar uma oferta concreta de possibilidades que leve em conta seu tempo escasso e a garantia de geração de renda.

O Preço Social, ou seja, os custos individuais para participar de um programa como esse, resultaram da dificuldade em permanecer num ambiente de forma regular por parte dos jovens. Para minimizar a percepção dos custos individuais e maximizar a percepção dos benefícios individuais e sociais de uma ação, o Marketing Social utiliza as estratégias de promoção, que tem como objetivo aproximar a demanda à oferta. As dificuldades, ou seja, custos de adoção dos CAPs nem sempre são previsíveis e não aparecem no começo da intervenção social. No caso da Terapia Comunitária, aplicada em Sobradinho 2, por exemplo, as rodas de terapia não tiveram o quorum necessário no início da intervenção, devido à resistência dos jovens ao conceito de terapia. A metodologia teve que ser redefinida, e um novo formato foi escolhido às atividades terapêuticas, rebatizadas de Fala Jovem!. As rodas de conversa foram então inseridas nas atividades artísticas, em eventos e concursos. Ou seja, a questão da Promoção do Marketing Mix Social teve que ser trabalhada especificamente, aproximando a demanda da oferta, atraindo os jovens às atividades da Terapia Comunitária e também das atividades culturais.

Para potencializar as estratégias de Promoção, levou-se em conta a cultura local da intervenção. No caso da periferia do Distrito Federal, um dos principais movimentos que mobilizam os jovens é o Hip Hop. Por isso, os jovens são convidados às oficinas de break, grafiti, DJ e rap, onde entram em contato com novos olhares e possibilidades de atuação na área social. Além disso, eles fazem reflexões sobre sua realidade e sua participação social durante as oficinas, assim como nos espaços onde é aplicada a Terapia Comunitária.

Em algumas comunidades, gangues e grupos de jovens rivais demarcam seus territórios, impossibilitando o tráfego livre da comunidade. Por isso, novas estratégias de Ponto-de-Distribuição Social levam os CAPs e os componentes do Programa até o público por meio de eventos itinerantes realizados pelas ruas da cidade. Esses eventos acontecem em parceria com o governo local, e visam atender a comunidade como um todo, suprido sua carência por espaços lúdicos e de lazer, e promovendo idéias e comportamentos socialmente saudáveis.

Para garantir que os CAPs permeiem todas as oficinas, existem capacitações regulares e interdisciplinares do Pessoal, ou seja, dos educadores e dos terapeutas, e uma integração na área de execução e de gestão dos profissionais que trabalham nas oficinas e nas rodas de Terapia Comunitária. As capacitações são realizadas regularmente e abarcam questões como Teoria da Comunicação, Pedagogia Paulo Freire, gestão social, assuntos relacionados à saúde, violência e políticas públicas de juventude.

Todas as Tecnologias Sociais do Programa (como a Revista Expressão Jovem, por exemplo), têm foco na comunicação e na expressão jovem, e têm como finalidade principal suscitar o debate e a reflexão sobre questões que foram verificadas na Pesquisa de Determinantes e facilitar a adoção dos CAPs promovidos. Além disso, as tecnologias sociais fazem esta revisitação constantemente para que o programa continue dentro dos parâmetros estabelecidos inicialmente.

O Programa Jovem de Expressão utiliza as ferramentas do Marketing Social desde sua concepção até a sua avaliação e sistematização, aliadas às ações de Mobilização Social. No momento, o Programa está em fase de sistematização, processo que também está dentro de uma perspectiva estratégica, prevendo a gestão do conhecimento acumulado e a sua expansão em nível nacional e quem sabe, internacional. A interação dos três eixos de atuação (Mobilização Social, Terapia Comunitária e Marketing Social) tem se mostrado eficaz no alcance dos objetivos delineados, e sua avaliação de impacto está em processo conclusivo. O que se pode afirmar no momento, com certeza, é que o tripé Mobilização Social-Marketing Social-Terapia Comunitária, tem oferecido alternativas interessantes que conseguem abranger as diversas problemáticas da juventude da periferia, mapeadas durante as pesquisas que antecederam o planejamento da intervenção.


Referências Bibliográficas:

BARRETO, A. (2005) Terapia Comunitária passo a passo.  Fortaleza, Gráfica LCR, 2005.

FONTES, M. Marketing Social: Novos Paradigmas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.

FONTES, M. SCARTEZINI, A. AZEVEDO, C. LARO, R. Fatores Determinantes da Violência Interpessoal entre Jovens no DF. Brasília: Grupo Caixa Seguros, 2006.

TORO A, José Bernardo e WERNECK, Nísia Maria Duarte. Mobilização Social, um modo de construir a democracia e a participação. Brasília. Associação Brasileira de Ensino Agrícola Superior –ABEAS- e UNICEF. 1997.

WAISELFISZ, Julio J. Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008. Brasília: Ministério da Saúde, 2008.

Digital:
MOREIRA, I. O uso do Hip Hop para inclusão social dos Jovens 
Acessível em: http://www.socialtec.org.br/index.php/artigos/37-cidadania/157-o-uso-do-hip-hop-para-inclusao-social-dos-jovens
OLIVEIRA, D. A Terapia Comunitária como Política Pública.
Acessível em: http://www.socialtec.org.br/index.php/artigos/26-saude/165-a-terapia-comunitaria-como-politica-publica
OLIVEIRA
, S. Masculinidades e Violências.
Acessível em: http://www.socialtec.org.br/index.php/artigos/28-violencia/23-masculinidades-e-violencias
RAMALHO
, C. Desafios para o Lazer como prática social cidadã
Acessível em: http://www.socialtec.org.br/index.php/artigos/37-cidadania/156-desafios-para-o-lazer-como-pratica-social-cidada
WASEK, G. Aplicação do marketing social na saúde pública - uma perspectiva do marketing
Acessível em: http://www.socialtec.org.br/index.php/artigos/26-saude/152-aplicacao-do-marketing-social-na-saude-publica-uma-perspectiva-do-marketing


Mariann Tóth é Especialista em Estudos Internacionais Avançados, pela Sociedade de Estudos Internacionais, Madri (2005). Especialista em Políticas Sociais e Gestão de ONGs, pela Universidade de Brasília (2004). Graduada em Publicidade e Propaganda (2002) e em Jornalismo (2001) pela Universidade de Brasília. Coordenadora da área de Marketing Social da John Snow do Brasil Consultoria.
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