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Artigos - Marketing Social
Escrito por Mariann Tóth   
Ter, 15 de Setembro de 2009 16:42

Por Mariann Tóth e Anna Luisa Polachini
 
Ser jovem no Brasil representa o crescimento, a vitalidade e a capacidade produtiva em alta. Há, portanto, um movimento envolvendo governo, empresas e organizações do terceiro setor no sentido de canalizar para os jovens parte dos investimentos sociais. Essa parcela da população tem um grande potencial transformador, que vai impactar diretamente no futuro do País, mas precisa de mudanças imediatas em algumas realidades. Entre elas, alta taxa de desemprego, violência interpessoal, suicídio e a prevalência de doenças sexualmente transmissíveis.


Em 2006, foi realizada uma pesquisa inovadora com jovens do Distrito Federal: Fatores Determinantes da Violência Interpessoal Entre Jovens no DF. Esta pesquisa não olhou somente para os efeitos da violência, mas principalmente para suas causas. O objetivo foi estudar o que acontece nos ambientes em que o jovem vive (escola, casa, família, comunidade), para identificar o que exatamente aumenta as chances de ocorrer a violência e quais são os tipos de comportamento violento que podem ser prevenidos.

A pesquisa descobriu que a juventude no DF tem potencial e criatividade de sobra – mas tem também necessidades, demandas e problemas sociais decorrentes da situação em que vive. Com isso em mente, podemos perguntar: Nós, como indivíduos, enfrentando problemas sociais tão sérios, temos o poder de mudar a realidade social que nos cerca?  Para os jovens, o que é a mudança social e como ela ocorre?


Antes de mais nada, é necessário que a sociedade trabalhe em conjunto. O papel do Estado é desenhar políticas públicas, programas e recursos que protejam o jovem e garantam para ele empregabilidade, educação, cultura e saúde, entre outros. A parte dos programas de investimento social privado (como o Grupo Caixa Seguros e o programa Jovem de Expressão) entra com recursos e conhecimentos técnicos para programas criativos que estimulem a mudança social. E a parte dos jovens nessa relação consiste em adotar comportamentos e hábitos positivos, tanto para ele quanto para a sociedade.

Há várias maneiras de mudar esses comportamentos, mas primeiro é importante entender o que são conhecimentos, atitudes, e práticas (também chamados de CAPs). O conceito de CAPs parte da noção de que a maneira de que nós conhecemos o mundo e a maneira como nos comportamos dentro dele afetam a nossa realidade e a realidade das pessoas que fazem parte da nossa vida.


Vamos tomar, como exemplo, algo que queremos mudar na sociedade, algo que seria benéfico a todos.  Digamos que queremos mais pessoas praticando sexo com camisinha, pois isto diminui a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis e ajuda a evitar gravidez indesejada.  Sendo assim, quanto mais pessoas usam camisinha na hora de transar, melhor será para elas e para a sociedade também.


O “C” do CAPs significa conhecimentos.  Pensando no exemplo da camisinha, as pessoas podem ter ou não ter conhecimentos sobre ela.  Um exemplo de um conhecimento seria:  “Eu aprendi que camisinha, quando usada corretamente, diminui a transmissão de doenças como HIV/AIDS.”  Conhecimentos podem ser considerados as mais fáceis de obter, seja por meio de aulas, leitura, televisão, rádio, terapia, ou experiências próprias.

O “A” do CAPs quer dizer atitudes.  Atitude tem a ver com a sua disposição, intenção, ou seja, como você se sente sobre fazer algo, como usar a camisinha. As atitudes já são um pouco mais difíceis de mudar quando comparadas com os conhecimentos.  A atitude de um jovem pode ser: “Eu sei que é melhor para a minha saúde transar com camisinha, e eu quero preservar a minha saúde. Então, tenho a intenção de usar camisinha toda vez que for transar.” Vemos aqui que o jovem pretende a usar a camisinha. Mas e na prática, será que ele usa mesmo sempre que transa?


É aqui que entra o “P” do CAP, ou seja, a prática.  Na “hora H”, o jovem pratica sempre sexo com camisinha?  Uma pessoa pode ter o comportamento de usar camisinha de vez em quando.  Isto ainda não é a mudança de comportamento desejável.  O alvo é a prática regular do comportamento positivo, ou seja, que o jovem utilize a camisinha todas as vezes que for transar. As práticas necessitam de mais esforço para serem mudadas.


Para investigar os CAP de uma população, vários métodos são utilizados. Por exemplo, um questionário sobre sexo seguro pode ser feito com moradores de uma comunidade. Pode-se descobrir, ainda em tese, após aplicar o questionário,  que faltam conhecimentos sobre a maneira certa de guardar e usar camisinha. Ou pode ser que os jovens não tenham a atitude desejada em relação a usar camisinha.  (Exemplo: “Eu sei que é melhor usar camisinha, mas tenho certeza de que meu namorado é fiel, portanto, não pretendo usar com ele.”) Ou ainda existe a possibilidade de que o conhecimento e a atitude estejam lá, mas na prática o uso da camisinha não esteja ocorrendo.


É importante que seja feito este questionário para que pessoas que planejam e elaboram programas sociais saibam do que o jovem está precisando naquele momento. Assim, é melhor para ajudá-lo a alcançar mudanças de comportamento positivos e a adoção de novos hábitos. Programas de investimento social podem trabalhar em melhorar os CAPs. Com programas sociais bem planejados e a participação dos jovens, podemos mudar o quadro para melhor, resultando em  mudança social positiva!

O melhor é que os benefícios da mudança social não são somente sentidos pelo jovem, mas também pelas pessoas que fazem parte da sua vida. Os resultados podem incluir melhor saúde, mais segurança na comunidade, maiores oportunidades de trabalho e mais felicidade pessoal.


Também é necessário que ocorra uma melhoria de políticas públicas para os jovens e programas sociais realizadas pelas ONGs e agências privadas. Isto é essencial para ter mudança social.  Porém, é preciso lembrar que tudo que você fizer também tem importância.  Até certo ponto, somos todos produtos da sociedade e o meio em que vivemos.  Mas isto não é o nosso destino nem uma sentença final!  A partir de você, é possível realizar grandes mudanças sociais. Os seus conhecimentos, atitudes, e práticas podem beneficiar não somente você, mas também as pessoas com que você mais se importa – sua família, seu parceiro, seus amigos e suas comunidade.  
 
Os CAP podem ser ilustrados como uma pirâmide ao contrário. Para que haja uma mudança positiva de comportamentos, precisamos dos três níveis da pirâmide. A obtenção do conhecimento (informações) nos ajuda a formar atitudes (intenção de agir), que por sua vez influenciam as nossas práticas (atos contínuos). Geralmente, é mais fácil transmitir conhecimentos do que mudar atitudes ou incentivar práticas regulares! 


Conhecimento antigo: Bater no meu parceiro/a de vez em quando é justificado.
Atitude antiga: Se o meu namorado/a me tirar do sério, eu iria dar um empurrão nele/a.
Prática antiga: Eu discuti com o meu namorado/a e cometi uma agressão física.


Conhecimento novo: A violência contra parceiro/a não pode ser justificada. 
Atitude nova: Quando o meu namorado/a me tira do sério, eu vou tentar conversar com calma ou me retirar da situação.
Prática nova: Hoje em dia, quando a gente discute, eu vou dar uma volta para esfriar a minha cabeça.


 
 
Depoimentos
 
L. L. (sexo feminino, 22 anos, estudante)
  
“Eu acho muito importante o uso da camisinha porque hoje em dia é muito comum a infidelidade e se caso um namorado pegar alguma doença sexualmente transmissível com outra mulher, a camisinha vai impedir que a namorada pegue a doença.”
 
“Eu não uso camisinha com freqüência. Costumo tomar anticoncepcional.”
 

M. V. R. (sexo masculino, 23 anos, estudante)
“A camisinha é importante por dois pontos: 1° por causa da saúde porque previne doenças; 2° gravidez não desejada”
 
“Olha, eu uso camisinha. Mas não é sempre não. Às vezes não dá tempo nem de lembrar de colocar, mas eu sei que é errado.”


 Violência
D. C. (sexo masculino 21 anos, estudante) 
“Cara, depende. Porque assim, tem pessoas que irritam demais. Eu sei que é errado, mas tipo, se a pessoa a garota me irritar demais eu não me responsabilizo.”
 
Se o meu namorado/a me tirar do sério, eu iria dar um empurrão  nele/a.
“Se ela me irritar demais ou se me trair, eu empurro sim.”
 
Eu discuti com o meu namorado/a e cometi uma agressão física.
“Eu nunca agredi nenhuma namorada minha”

 
Sexualidade
“Pô, é muito importante o uso da camisinha porque previne de doenças, né? E não deixa a garota engravidar antes da hora”
 
“Eu uso sim, mas não é sempre não. Ah, qualquer coisa ainda tem a pílula do dia seguinte”
 
 
 
Mariann Tóth é Coordenadora de Marketing Social da John Snow do Brasil, especialista em Políticas Sociais e Gestão de ONGs pela Universidade de Brasília (UNB) e em Cooperação Internacional pela Sociedad de Estúdios Internacionales, Madrid.
 
Anna Luisa Polachini
é psicóloga e mestranda em Serviço Social e Saúde Pública pela Universidade de Michigan.

 

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