Ações de Destaque

Blog do Miguel Fontes
O Real Valor das Pontes de Cidadania PDF Imprimir
Escrito por Miguel Fontes   
Seg, 05 de Abril de 2010 11:52

“A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento”

Lenine


Em todo o mundo, investimentos em infra-estrutura, principalmente pública, são analisados sob a ótica do seu retorno econômico e social. Isso porque muitos desses empreendimentos contribuem para geração de riquezas para a sociedade e país, sem necessariamente serem auto-suficientes. Sendo assim, não precisam de fluxo de caixa ou a criação de entidades específicas para a coleta de recursos financeiros.


Para compreender melhor esse enfoque, faz-se necessário explicitar a diferença entre  retorno financeiro e econômico de novos investimentos. Por exemplo, qual o valor econômico da construção de uma nova ponte? Sabemos que a ponte reduz distâncias e melhora o fluxo humano entre duas localidades com algum tipo de interferência natural entre elas, como rios e acidentes geográficos. Logicamente, não faria sentido pensar na auto-sustetação financeira de todas as pontes do planeta. Caso contrário teríamos que criar algum mecanismo de coleta financeira, como seriam no caso do pedágio. No entanto, diferentemente da lógica financeira, a ponte atinge sustentabilidade quando conseguimos atribuir valores econômicos e sociais para sua existência. No caso de valor econômico, o mais importante seria o uso mais eficiente de recursos, como diminuição de uso de combustíveis e maior produtividade na produção e comercialização de produtos.

Não há nenhum investimento em infra-estrutura sério que não faça um estudo de valoração e de seus ganhos econômicos. No caso das pontes, não é diferente. Ou seja, somente a existência da ponte já torna o empreendimento sustentável sob a ótica econômica. Sendo assim, diversos empreendimentos que não poderiam ser considerados viáveis pela ótica do retorno financeiros, atingem sustentabilidade econômica.

Esses empreendimentos também podem ser muito importante para o fortalecimento de redes sociais e redução da pobreza. Novamente, no caso das pontes, populações isoladas poderão te acesso a novos bens e serviços públicos. Além disso, o intercâmbio educacional pode ser aprimorado contribuindo para o desenvolvimento humano e comunidades mais equitativas.

Como funciona a geração de riquezas econômicas no caso dos programas sociais?


Esse raciocínio não é diferente para o caso dos programas sociais. Muitos pensam que a sustentabilidade de um programa social, como promoção da redução da violência entre jovens, é atingida com o financiamento contínuo de doadores diversos. Com certeza, o recurso financeiro é muito importante para alavancar um programa social, mas seria inviável taxar os jovens de programas sociais para atingir a auto-sustentação.


Basicamente, programas sociais podem ser considerados PONTES para a cidadania. Com a mudança de conhecimento, atitudes e práticas sociais de jovens em relação a violência, teremos uma sociedade mais produtiva, com reflexos na renda familiar e redução das perdas humanas e do patrimônio público. Isso além de criar condições para o fortalecimento do capital social ou redes humanas transformadoras.


Em Brasília, um estudo de avaliação de impacto social realizado pela John Snow Brasil Consultoria e financiado pela Caixa Seguros em colaboração com o Grupo Azulim e Mismec-DF demonstrou que para cada R$1,00 investido no programa Jovem de Expressão (com objetivo de reduzir a violência entre jovens), projetou-se a geração de renda econômica de R$1,87 em valores presentes. Essa projeção tomou como base a constatação de que um jovem menos violento é efetivamente mais produtivo e gera mais renda para sua família e comunidade. Esse mesmo raciocínio pode ser ampliado para programas com idosos, mulheres vítimas de violência doméstica, melhoria das condições de ensino, etc. Ou seja, social não é somente custo, nem gasto, é um grande investimento.


Uma das principais dificuldades para a valoração de programas sociais é exatamente aplicar
esses conceitos de forma objetiva e concreta e apresentá-los para a sociedade. Como alguns desses conceitos necessitam de modelos de pesquisa comportamental, análises estatísticas e aferições econômicas e sociais, muitos programas não estão preparados para aplicá-los. Sendo assim, tornam-se reféns do dados de produção, como o cálculo de número de usuários, satisfação, etc.

Tomando novamente a analogia da ponte, seria como apresentar para a sociedade que temos uma linda PONTE com fluxo considerável de usuários, mas sem a demonstração efetiva de como esse fluxo contribui efetivamente para a geração das riquezas econômicas e diminuição das diferenças sociais. As organizações sociais têm que se preparar, cada vez mais, para a demonstração de como gerão essas riquezas para a socidade. Isso em função do capital financeiro estar em ciclos mais especulativos do que de investimentos.

Miguel Fontes, Diretor da John Snow Brasil e PhD em Desenvolvimento de Alianças Público Privadas, Deptº de Saúde Internacional, Johns Hopkins University - SAIS

 
Existe Algum Problema em Ser Assistencialista? PDF Imprimir
Escrito por Miguel Fontes   
Ter, 29 de Setembro de 2009 15:34

Há mais de quinze anos venho falando sobre o valor sócio-econômico da promoção de conhecimentos, atitudes e práticas de segmentos específicos da população. Esses comportamentos podem ser relacionados com a prática de exercício físico, atitudes positivas sobre masculinidade, alimentação saudável, etc. Geralmente apresento essas dinâmicas dentro de uma visão do marketing social, reforçando o papel fundamental da gestão estratégica para o planejamento, implementação e avaliação dessas intervenções. Falo também, da necessidade de que essas ferramentas de gestão demonstrem que atuar no social é um grande investimento e não apenas uma distribuição de bens aos mais necessitados.


No entanto, embora seja o maior seguidor dos princípios dos conceitos estratégicos de mudança da sociedade, como o marketing social, a avaliação de impacto social, a responsabilidade social corporativa, as políticas sociais inclusivas (como políticas integradas de assistência social), e a pesquisa de determinantes além de tantos outros, me pergunto se devemos execrar o exercício das atividades meramente assistencialistas. Seriam elas atividades justificáveis apesar de apenas aliviarem necessidades emergentes de populações mais vulneráveis?


Para definir melhor o que é assistencialismo, precisamos recorrer, mais uma vez, ao entendimento da relação que se estabelece durante uma atividade puramente assistencialista. Se levarmos em consideração a definição do Dicionário da Cidadania da Fundação Bunge de que o assistencialismo é uma “doutrina, sistema ou prática que organiza e presta assistência às comunidades socialmente excluídas, entretanto, sem que seja elaborada uma política para tirá-las da condição de carência,” podemos ver claramente que os princípios estratégicos de transformação social não se encaixam nessa concepção.


Logicamente, qualquer ação na sociedade requer algum tipo de troca. Nesse sentido, o assistencialismo também pode ser interpretado como uma ação de benemerência em que o agente da ação também espera receber algum tipo de gratificação das “comunidades socialmente excluídas”. Isso pode ocorrer na forma de gratidão, senso de maior segurança, questões espirituais, etc. Caso contrário, não faria qualquer sentido uma ação puramente assistencialista, já que não consegue tirar ninguém da “condição de carência”.


De qualquer forma, mesmo não tirando dessa condição, o que fazer quando vemos claramente que uma comunidade socialmente excluída está em situação extrema de necessidades, como no caso de uma seca ou enchente?


 Sei que muitos poderiam dizer que um planejamento anterior por parte das autoridades poderia ter evitado essa situação. Ou seja, uma ferramenta estratégica poderia ter sido utilizada para evitar exatamente as causas da extrema carência. Mas a pergunta persiste, pois se o fato não pôde ser prevenido e a situação já ocorreu, será que a comunidade terá que esperar pelos projetos, planos, estratégias, etc. para ter acesso a serviços e produtos emergenciais?


O caso de Nova Orleans nos Estados Unidos após a passagem do Furacão Katrina é bem ilustrativo. Enquanto muitas comunidades se tornaram “carentes” da noite para o dia, o governo dos Estados Unidos demorou muito tempo para começar a investir no resgate das vítimas e reconstrução das comunidades arrasadas, por ficar esperando pelos programas, estratégias, etc. Se tivesse se concentrado em ações imediatas de entrega de serviços e produtos assistenciais, sem se preocupar em demasia com os sistemas, as chances teriam sido bem maiores de um alívio imediato das sérias conseqüências humanitárias.


Sendo assim, devemos sempre deixar claro que há situações sim, em que uma ação assistencial direcionada a comunidades em condição extrema de carência, é justificável e essencial! Essas ações assistenciais, sem objetivos de mudança ou fortalecimento de políticas sociais, poderão contribuir para aliviar uma situação grave, enquanto planos estratégicos de ação e transformação estão sendo elaborados, orçamentos definidos e profissionais capacitados.


Essas considerações valem também para as empresas que querem investir na área social. Nem todos os recursos alocados na área de responsabilidade social são caracterizados como investimento social privado. Aliás, a maior parte dos recursos das empresas ainda vai para ações assistencialistas. No entanto, as empresas não devem se envergonhar disso ou achar que devem caracterizar todas suas ações como “estratégicas”. No mundo ideal, realmente as ações planejadas e que poderiam ser genuinamente classificadas como investimentos, deveriam deixar de ser uma exceção. A transformação social sempre deve ser o foco da humanidade para reduzir o efeito estufa, os desequilíbrios sociais e melhoria da qualidade de vida. Porém, ter alguns componentes de assistencialismo pode fazer bem às comunidades carentes, como também ao espírito de seus líderes e representantes das diversas partes interessadas da empresa.



* Diretor da John Snow Brasil e PhD em Desenvolvimento de Alianças Público Privadas, Deptº de Saúde Internacional, Johns Hopkins University – SAIS.
 
Não basta gerenciar, tem que se saber aonde se quer chegar PDF Imprimir
Escrito por Miguel Fontes   
Qui, 16 de Julho de 2009 15:24


No mês de junho, foi realizada em Washington a 1ª. Conferência do Conselho Global de Empresas para a Promoção da Saúde Pública. Representantes do peso pesado do mundo corporativo estavam lá, como Levis Strauss, XMobil, Nike, Anglo American, Nokia, Microsoft, SSL-Internacional, entre outros. Um dos aspectos mais interessantes da conferência foi ver as reflexões sobre a relação do PIB mundial com questões diretamente relacionadas à responsabilidade social empresarial. Mesmo se tratando de uma conferência com foco em saúde pública, as questões levantadas pelos próprios empresários giravam em torno dos motivos corporativos e dos resultados mais amplos de se envolverem em causas sociais, principalmente em países em fase de desenvolvimento.

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Capitalismo vs. Socialismo ou Capitalismo Social PDF Imprimir
Escrito por Miguel Fontes   
Seg, 08 de Junho de 2009 16:20

Não há como negar o eterno dilema das teorias outrora “modernas” sobre o desenvolvimento socioeconômico de um país. De um lado, o capitalismo de Adam Smith com suas teorias sobre Decisões Racionais, e do outro lado, o socialismo de Karl Marx com suas teorias sobre Conflito de Classe. Aliás, muitos morreram lutando e acreditando fielmente em uma dessas correntes como doutrina quase religiosa. Chegamos ao Século XXI e o que vemos na realidade, é que nenhuma das duas doutrinas isoladamente conseguiu trazer plena harmonia aos povos. 

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As armadilhas de um Índice Nacional de Responsabilidade Social PDF Imprimir
Escrito por Miguel Fontes   
Ter, 14 de Abril de 2009 14:42

A nova proposta de criação do Índice Nacional de Responsabilidade Social (INRS) dos Estados e Municípios contribui para uma melhor avaliação da efetiva aplicação de recursos e resultados da gestão pública. Se forem utilizados indicadores isentos (como mortalidade infantil, nível de escolaridade, etc.), o novo Índice poderá ser utilizado como um excelente parâmetro da administração pública, principalmente para o Poder Executivo. Os índices contribuem ainda para que o investidor público (ou seja, o contribuinte) possa entender melhor os avanços e/ou prejuízos da aplicação dos seus recursos. Os índices são marca registrada de avaliações nas áreas pública e privada, em diversos países. No entanto, cabe ressaltar a importância de tais índices também para os Poderes Judiciário e Legislativo. Seria muito importante identificar os padrões existentes de eficácia e impacto para as atividades exercidas por esses outros braços do Poder Público pois, muitas vezes, fica parecendo que padrões de gestão e qualidade de atendimento devem apenas ser alcançados pelo Poder Executivo. Isso representa um reducionismo gerecial e faz com que os outros dois Poderes estejam, cada vez mais, distantes do cidadão comum. 

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